Pular para o conteúdo
  • Blog
    • Creators economy
    • Creators insider
    • Criação de conteúdo
    • Time Creators
    • Imprensa
    • Produto
  • Cases
  • Calculadora
  • Agendar demo
Contrate Creators
Seja Creators
Login

Depois do Hook: como o marketing brasileiro aprendeu (ou não) a criar produtos que prendem.

O modelo Hook, de Nir Eyal, completa mais de uma década e nunca foi tão atual para entender por que o brasileiro abre o Nubank antes do café e o iFood no meio da tarde sem ter fome.

por Rodrigo Allgayer
Founder & Chief Product Officer | Creators Platform LLC

Existe uma pergunta que nenhuma apresentação de brand equity responde com honestidade: seu consumidor voltou porque amou a marca ou porque não conseguiu parar?

A diferença importa. E o mercado brasileiro, que bateu 185 milhões de usuários de smartphones em 2024 e registrou o maior tempo médio de uso de internet móvel do mundo (mais de 5 horas por dia, segundo a DataReportal), está repleto de evidências de que o segundo cenário é muito mais comum do que os departamentos de marketing gostariam de admitir.

Nir Eyal mapeou esse mecanismo ainda em 2014, no livro Hooked: How to Build Habit-Forming Products. Ele descreveu um ciclo de quatro etapas: Gatilho, Ação, Recompensa Variável e Investimento. Repetido com frequência suficiente, esse ciclo transforma produtos em hábitos. O que parecia uma curiosidade do Vale do Silício sobre redes sociais se revelou, uma década depois, o manual não declarado de boa parte do marketing digital brasileiro.

Índice do conteúdo

Toggle
  • O gatilho que você nem percebe
  • A ação tem que custar pouco
  • A recompensa que não se repete igual
  • O investimento que te prende de vez
  • O lado ético que o marketing não pode ignorar
  • O que o Hook ensina ao marketing brasileiro

O gatilho que você nem percebe

O primeiro elo do ciclo é o gatilho. No início, ele é externo: a notificação, o e-mail, o banner, a mensagem do influenciador. O objetivo, porém, é que ele se torne interno, uma emoção ou situação cotidiana que o consumidor associa automaticamente ao produto sem precisar de qualquer empurrão.

O Nubank entendeu isso melhor do que qualquer banco tradicional. O aplicativo não apenas enviou notificações em tempo real sobre cada transação; ele treinou o brasileiro a checar o app por ansiedade financeira, por curiosidade, por hábito. Em 2023, a fintech superou 90 milhões de clientes no Brasil e reportou um NPS acima de 80, números que não se explicam apenas por produto ou preço. O gatilho interno já estava instalado: qualquer dúvida sobre dinheiro virou um reflexo de abrir o roxinho.

O mesmo mecanismo opera no iFood. O gatilho externo (promoção relâmpago, notificação de “frete grátis agora”) foi usado sistematicamente para criar uma associação interna: tédio, cansaço ou sexta-feira viraram sinônimos de “pedir comida”. O resultado é que o aplicativo registrou mais de 60 milhões de pedidos por mês em 2024. Grande parte deles não nasceu de fome real. Nasceu xde gatilho.

A ação tem que custar pouco

O segundo elemento do Hook é a ação: o comportamento que o usuário realiza em antecipação a uma recompensa. A regra aqui é darwiniana. Quanto menor o esforço, maior a probabilidade de acontecer. Eyal cita a equação de BJ Fogg: o comportamento é função de motivação e facilidade.

O Brasil tem um laboratório vivo disso chamado Pix. O Banco Central lançou o sistema em novembro de 2020 e, em menos de três anos, ultrapassou o cartão de débito em volume de transações. A razão não foi só gratuidade: foi a radicalização da simplicidade. Copiar a chave, colar, confirmar. A fricção virou quase zero e o hábito explodiu. Hoje, mais de 150 milhões de brasileiros usam o Pix mensalmente.

Na outra ponta, o varejo que ainda exige cadastro, captcha, três etapas de confirmação e senha de seis dígitos antes de finalizar a compra está essencialmente pedindo ao consumidor que resista ao ciclo do hook. Muitos resistem. E vão embora.


A recompensa que não se repete igual

A terceira etapa é a mais contraintuitiva e a mais poderosa. O que cria compulsão não é a certeza de recompensa, mas a incerteza. A dopamina sobe mais na expectativa do que na chegada. Por isso caça-níqueis viciam mais do que poupanças, e por isso o feed infinito é mais difícil de largar do que um catálogo organizado.

O Mercado Livre dominou esse mecanismo com suas notificações de “seu pedido avançou na rota”. Cada atualização é uma recompensa variável: às vezes o pacote saiu do centro de distribuição, às vezes chegou à cidade, às vezes já está com o entregador. O consumidor abre o app repetidamente não porque precisa da informação, mas porque o próximo update pode ser o definitivo e essa possibilidade é irresistível.

A Shopee foi ainda mais longe ao gamificar a compra com moedas, missões diárias e roletas de desconto. O aplicativo transformou a procrastinação em rotina de compra. Em 2023, tornou-se o e-commerce com maior número de downloads no Brasil, não pelo catálogo, mas pelo loop.

No contexto das redes sociais, o TikTok replicou para o mercado brasileiro o mesmo padrão que Eyal já descrevia como central ao Pinterest: uma enxurrada de conteúdo parcialmente relevante, parcialmente surpreendente, que mantém o usuário em estado de caça permanente pelo próximo vídeo extraordinário. O feed não é curado para satisfazer. É projetado para nunca satisfazer completamente.


O investimento que te prende de vez

O quarto estágio é o mais silencioso e o mais eficaz: o investimento. Cada dado que o usuário fornece, cada preferência que registra, cada conexão que faz dentro da plataforma aumenta o custo de saída e melhora a experiência futura, o que, por sua vez, torna o próximo ciclo mais forte.

A Spotify brasileira entendeu isso ao construir o Wrapped anual, o Blend entre amigos e as playlists geradas por algoritmo. O usuário que passa meses curtindo músicas, seguindo artistas e construindo playlists já não assina o Spotify. Ele mora no Spotify. Trocar de plataforma significa perder um histórico que é, de certa forma, autobiográfico.O mesmo vale para o ecossistema Magazine Luiza. O Magalu investiu em construir uma plataforma onde o histórico de compras, o programa de fidelidade e a conta digital criam uma teia de investimentos que dificulta a migração. Não é lock-in no sentido pejorativo. É design de produto que recompensa quem permanece.


O lado ético que o marketing não pode ignorar

Eyal reservou a parte mais importante do livro para uma questão que o mercado frequentemente esquiva: quando o engajamento vira manipulação? Ele propõe um teste simples. O criador do produto usaria ele mesmo? Ele acreditaria que o produto melhora a vida do usuário?

O Brasil tem casos que não passam nesse filtro. Aplicativos de apostas esportivas explodiram no país entre 2023 e 2025, em boa parte porque dominaram o ciclo do hook com maestria: gatilhos externos agressivos via SMS, ação de baixíssima fricção (um clique, depósito via Pix), recompensa máxima variável (a aposta pode multiplicar por cem) e investimento crescente com bônus que exigem mais apostas para serem sacados. O resultado foi uma crise de saúde pública documentada, com o Banco Central registrando que famílias de baixa renda chegaram a comprometer parcelas do Bolsa Família em plataformas de bet.

A pergunta que o mercado precisa responder não é só “como criar hábito?” Mas qual hábito vale criar.


O que o Hook ensina ao marketing brasileiro

Uma década depois de Eyal sistematizar o modelo, as lições práticas para o profissional de marketing no Brasil são mais nítidas do que nunca.

A batalha pelo hábito começa no gatilho interno. Marca que só compra atenção nunca vira rotina. A questão é: quais emoções e situações cotidianas do consumidor brasileiro sua marca quer habitar?

Cada ponto de fricção na jornada é um ponto de desistência. O Pix provou que o Brasil adota com velocidade quando a ação é simples. Seu funil de conversão tem mais passos do que precisa. Variedade não é falta de foco, é design de retenção. A repetição previsível enjoa. A surpresa dentro de um padrão esperado cria antecipação. O que sua marca pode tornar imprevisível sem ser incoerente?

Incentive o investimento cedo. Cada dado, cada personalização, cada histórico construído aumenta o vínculo e reduz o churn. Não espere o cliente estar engajado para pedir que ele contribua.

E, acima de tudo: o hook funciona melhor quando serve ao usuário. Produtos que criam hábitos nocivos pagam um preço reputacional que nenhuma campanha consegue reverter. O consumidor brasileiro, cada vez mais informado e cético, distingue o produto que o ajuda do produto que o usa. Fidelidade de verdade não é o consumidor preso no loop. É o consumidor que, mesmo podendo sair, escolhe ficar.


O artigo é baseado nos conceitos do livro Hooked: How to Build Habit-Forming Products, de Nir Eyal (Portfolio/Penguin, 2014).

Receba os conteúdos mais atuais sobre o marketing de influência por e-mail

Creators Platform LLC
Sobre nós

Blog

Central de ajuda

Contato

Time

Termos

Política de Privacidade

Para clientes

Solicite uma Demo

Conheça nossos Cases

Crie uma conta

Para criadores

Creators Calcula

Inscreva-se para fazer parte

Produtos CREATORS

Academy

Assets

Pay

Search

Squads